Dia das Crianças - recordações da minha infância

Outro dia comecei a fazer uma listinha das recordações de minha infância, tipo fechar os olhos e deixar a primeira lembrança aparecer. A idéia era manter a listinha para mim, mas como a Ivana instigou a idéia escrevendo sobre a infância dela lá no Jámêvú, aqui estão as minhas recordações (sessão melancolia dado a proximidade ao dia das crianças).



Brinquei bastante de fazer comidinha de barro, macarronada de minhocas, salada de azedinha. Tinha uma Susi já que Barbie não existia na minha época (existia, mas era muito cara ou rara no Brasil). Também tive bonecas de papel (meu pai as comprava aos finais de semana juntamente com um monte de revistinha e aqueles livrinhos para pintar com água) e para dizer a verdade, gostava muito mais de brincar com a boneca de papel de que com as outras que tinha.


Uma vez, quando morávamos em São Mateus do Sul, minha mãe me mandou uma tarde para o jardim de infância junto com meu amigo Paulo Henrique, e eu achei a experiência muito chata, pois só tinha atividades para ''crianças". Achei as atividades muito enfadonhas para a "minha idade". Aliás, esta idéia de que deveria estar numa classe mais avançada me perseguiu até eu entrar na faculdade. Sim, eu era meio bossalzinha e me achava a rainha da cocada, mas acho que nunca menosprezei ninguém (espero), e me sentia superior a todos da minha faixa etária. Ainda em São Mateus do Sul, coloquei a mão no ferro quente e até hoje tenho a cicatriz. Nesta mesma época, adorava jogar polly (tipo lego) e brincar com carrinhos matibox na casa da Tia Maria. Na segunda casa que moramos nesta cidade eu deixei de dormir no berço e passei a dormir na minha própria cama, quero dizer, no chão já que caía da cama com frequência. Tinha um urso azul que minha voveia havia me dado e uma abajur de elefante (ou seria de urso?). Também foi em São Mateus do Sul que descobri o que era morte: as pessoas desaparecem da terra e se tornam nuvens branquinhas no céu. Foi isto que a dona da casa onde morávamos me contou quando perguntei porque o filho dela não estava mais com ela. Passei boa parte dos meus dias conversando com a nuvens brancas e procurando o filho dela entre as nuvens.


Mudamos para Registro e daí fui obrigada a ir para a escola, mesmo achando tudo muito chato, mas lá tive a minha primeira paixão, um japonesinho muito fofolete! Ele foi meu par numa festa junina do colégio, e cantamos e dançamos juntos aquela musiquinha: "... ai bota aqui, ai bota aqui o seu pezinho, o seu pezinho bem juntinho com o meu, e depois não vá dizer que você se arrependeu...". Gente, como esta cidade era quente e eu tinha de usar botinha ortopédica! Por causa do meu pé, uma vez fomos caminhar nas dunas que ficavam do outro lado do Rio Ribeira, aparentemente é um bom exercício para quem tem pé chato. Nesta época me dei conta de como eu era mandona. Eu só brincava com a piazada se eles aceitassem brincar do que eu queria, senão pegava meu tico-tico e voltava para casa atazanar a minha mãe e reclamar de que não tinha do que brincar. Adorava fazer tomate amassado no espremedor de alho, e pasmem: comia papel higiênico (limpo, obviamente)! Uma vez, uma pentelha de uma vizinha passou urtiga na minha perna (odeio aquela mulher até hoje), e também me lembro de ter sido comida viva por mosquitos o que me causou inflamação e febre. Perto (ou na) rodoviária desta cidade havia um bicho preguiça. No caminho do colégio havia um poço onde todos os dia eu parava e jogava pedras. Mais acima desta rua, havia uma escadaria enorme. Uma vez, minha mãe mandou a nossa babá ir me buscar no colégio, e eu briguei com a babá pois queria ir sozinha para casa. Nesta mesma época, minha mãe me dizia que eu não era filha dela e que minha mãe era uma maluqueira e eu chorava de soluçar (oh, maldade de mãe - traumatizei, viu?).


Nos mudamos para Curitiba e me lembro de me sentir muito feliz por estar mais perto dos meu avós. Lembro-me do frio que senti quando nevou (no dia seguinte a nevasca). Fiz bonequinho de neve e ainda sinto como foi legal pegar na neve. Estudei em colégio de freiras e uma vez uma amiga e eu planejamos tirar o treco que elas usavam na cabeça, pois queríamos saber se elas tinham cabelo comprido ou curto. Engoli uma tampa de canetinha Sylvapen (será que existe ainda?) e minha mãe foi chamada às pressas e fui levada ao médico. Nesta época sofria de bronquite e quando a crise atacava, eu só conseguia dormir sentada. Por causa disto, fiz muita inalação com cheiro de ovo podre e fui levada a muitas benzedeiras, e acho que foi uma das simpatias (um copo de água toda sexta-feira de lua minguante administrada por uma mulher que morava no bairro Mercês) que foi o que me curou da bronquite e fez com que meu nonno parasse de fumar e tossir (acredito piamente nisto). Eu falava com pessoas imaginárias, mas não pensem que falava em português com elas. Eu conversava com elas em inglês sem saber ao menos uma palavra em inglês.



Adorava as férias, pois quase sempre íamos passar um tempão na casa meus avós paternos ou íamos para a praia. Era tão bom parar na serra do mar e tomar café com leite e comer crostoli que minha vó preparava. Eu ía no carro do meu nonno (ele tinha uma vemaguete) atrás dele, encaracolando os cabelos dele e cantando esta música em inglês: Rock And Roll Lullaby, para o orgulho dele. Quando comecei a ler, meu passatempo na viagem era ler tudo que passava na minha frente. Uma vez perguntei ao meu nonno, e fiquei sem uma resposta plausível, qual era a diferença de hotel e motel! Ele era muito conservador e respondeu: apenas a primeira letra! Yes, sure...

Depois de Curitiba, nos mudamos para Pato Branco, mas aí eu já estava entrando na adolescência e portanto não cabe ao tema deste post contar minhas aventuras pelo sudoeste paranaense!

Feliz dia das Crianças!

22 comentários:

Ivana disse...

Vizinhaaaaa, que fofo este post! Mas tu eras danada de dar no em pingo dagua!
Comer papel higienico? Mas que gosto tinha? Jesus!
Agora uma curiosidade: como assim falava ingles sem saber uma palavra? Era um idioma inventado que achavas ser ingles?
Beijos.

Silvana Mello disse...

Puuxa, suas memórias são riquíssimas! Que maravilha! Eras "levada da breca", como diria minha avó. rsrsrsr Legal encontrar mais alguém que falava outra "língua" e ainda mais com amigos imaginários. bjuss

Augusto disse...

Belas lembranças de um tempo que não volta mais, mas que fica na memória, adoçando nosso coração quando amargurados. Minha infância desenvolveu-se nos anos 90, era Xuxa (Hoje Xoxa), TV Colosso, Canetinha Playcolor, Discos, Pogobol, Botinha Ortopé, Mamonas Assassinas, Pega-pega, Taco, Esconde-esconde muitos doces, enfim, eu fico contente por ter vivenciado uma infância divertida, ao ar-livre, em meio aos novos meios de entretenimento eletrônico como vídeo game e cia ltda (sem paciência). Vivi momentos de superação com o divórcio dos meus pais e "ganhar" uma nova família de ambos os lados. Esta é a vida, sempre nos ensinando, e quando você ficar estressado, dá uma reboladinha no bambolê que passa :D

Marcia disse...

Eu também amava as bonequinhas de papel! Bricava tanto, que elas viviam com o pescoço todo capenga hahaha.

Se eu tiver disposição ou falta de preguiça, depois escrevo sobre o que eu lembrar da minha infância :)

Edelize disse...

Ivana: bem provável que eu só enrolava a língua e achava ser inglês, talvez até usasse algumas palavras em inglês de ouvir em músicas ou através do meu avô. Quanto ao papel higiênico, não era o gosto que me atraía (não tem gosto de nada), mas deixar ele grudar no céu da boca.

Silvana: sua poesia ficou muito linda lá no seu blog, e vamos continuar a ser crianças, ok?

Augusto: isto memso, reboladinha no bambolê (adorei esta expressão). Fui uma viciada em video game (e ainda sou). Não sei o que viver o divórcio dos pais, mas imagino não ser nada fácil, principalmente para os filhos, deve passar uma insegurança enorme, mas como você disse ganhar outras famílias deve ser maravilhoso!

Marcia: deixa a preguiça de lado guria. Plante sementinhas para germinar daqui 4 dias e apareça no blog Vizinha! As mihas também ficavam de pescoço capenga. Eu fazia uma cirurgia nelas com durex.

Polly Etienne disse...

eu também tive suzi e adorava a sbonecas de papel, é daquelas que tinha roupinhas e vc atachava com as pontas de papel?? eu amava!!!! agora ver estas canetinhas aí foi demais, ahhahahhaa..somos da mesma época!! (não conheci esse jogo meu xará, rs....)
bj

Edelize disse...

Polly, adorava as canetinhas sylvapen. Acho que a bonequinhas de papel foram o encanto de muitas garotinhas como nós! Bjocas.

Edelize disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Maria Carolina disse...

Ede,

Acho que este foi o teu melhor post ever! Dá pra sentir o quanto ele saiu lá do fundo daquela arca velha da memória. Sem muitos filtros, somente fluiu! Que delícia, beirou o poético. Eu me identifiquei com mtos momentos. Também tive uma Susi, que eu idolatrava e também aprontava muito, graças aos bons céus! :-) Que delícia ter tido uma infância tão rica assim. Fiquei até emocionada.

Beijocas,

Cris

Maria Carolina disse...

Oooops, Maria Carolina é a minha filha!! Desculpas, nem percebi! :))

Edelize disse...

Cris: thank you! Sabe que é uma delícia lembrar destes momentos, e quanto mais eu penso, mais eu me lembro das minhas macaquices. Eu cortei o cabelo da minha Susi e ela ficou careca, mas eu a adorava, mesmo sem cabelos! Agora me dei conta que não tenho nenhuma foto aqui da minha infância. Da próxima vez que for p/ Curita, vou trazê-las! Bjocas.

Luciano Passuello disse...

Muito legal todo o post, mas devo dizer que só a lembrança das Sylvapen já valeu por si só! Eu era power user das Sylva, e ver aquela fotinho ali reativou conexões adormecidas em meu cérebro! :)

Legal saber também que seu passado envolve White Duck County, já que viajava muito para lá em minha infância (a família de minha mãe é toda de lá)...

Edelize disse...

Luciano: Sylva era tudo! Eu também gostava dos lápis de 24 cores. White Duck foi o meu paraíso na terra. Um dia, quem sabe, escrevo sobre esta cidade linda.

Flávia disse...

Sera que e mal de quem e predestinado a morar fora do Pais, porque eu, quando criança, adorava brincar de professora de ingles (dava aula e gritava com os alunos tudo no meu ingles).
Uma coisa que vc. me fez lembrar quando eu era criaça, nao vomite agora, e que minha mae, que sempre teve problemas dentarios, nao me deixava comer nenhum doce e nenhuma balinha, dai sabe o que eu fazia? Pegava o chiclete mascado pelos outros no chao e mascava, lebro ate do ccocantezinho da areia... Nojento, ne? Mas sao coisas de criança.
Beijos
Flavia

Mi disse...

achei tao bonitinha a estoria das nuvens...Quantas lembrancas da infancia ne? eu adoro relembrar os tempos de escola e as vezes do nada me lembro de coisas que ja estavam a seculos esquecidas. Mas elas devem ficar guardadinhas em alguma "gaveta" mental, e a gente so precisa arrumar um pouquinho pra relembrar de tudo ;) bjs!

Vivi disse...

Que delícia esse post amiga...lembrei dessas canetinhas, tinha até esquecido delas :)
Bjokas

Wandique disse...

Piazada? Quem não é de Ctba não sabe o que é isso ...

Edelize disse...

Flávia: esta do chiclete é ótima! Acho que todos aprontamos dessas coisas nojentas! Nunca havia pensado na relação de falar inglês e morar fora do país, pode até ser. No meu caso, eu tinha um "gut feeling" que iria morar fora do país desde a minha adolescência (para o desespero dos meus avós que não queriam nem ouvir falar no assunto).

Mi: incrível como certas coisas marcam. Esta história das nuvens sempre volta à minha cabeça e gostaria muito que ela fosse verdade.

Vivi: thanks!

Wandique: acho que muita gente deve saber. Com a quantidade de gente de outros estados morando em Curitiba, e com vários Curitibanos morando fora, acho que o termo já deve ser conhecido. Quando moramos em Registro, lembro de minha mãe pedindo vina no supermercado e a mocinha dizendo, não minha senhora, não vendemos isto aqui (e a geladeira estava forrada de vina).

Tina disse...

Oi Edelize!

Eita coisa boa passar infância no interior, não ? Também tenho boas lembranças da minha. E de colégio de freiras também: todo mundo queria saber se elas tinham cabelo curto ou comprido... rs Gostei muito do post.

beijos querida, take care.

Flávia disse...

Oi Edelize! Como vai? Pois e, a questao da panela de pressao esta para ser resolvida. Minha amiga Daniela vai trazer uma para dividirmos... Ufa, vai ser bom. Eu e a Polly queremos saber onde voce achou mandioquinha, menina!
Beijos e mais beijos (ah, e ja morei em Randwick. Meu marido ama esse bairro de paixao).

Ju Costa disse...

que saudade que deu... eu tambem usava aquelas canetinhas... noooossa, nem lembrava mais...
beijos

Cris S. disse...

Estou muuuito atrasada no comentário, eu sei, mas não queria deixar de registrar o meu encanto com o teu texto e a tua maneira de descrever as belezas e as feiurinhas da tua infância. Me identifiquei com muitos momentos, até porque somos de uma época semelhante. E que época não? Sem internet, sem DVD, nem vídeo, tenho a impressão que vivemos a vida mais a flor da pele, mais expostas às vicissitudes e belezas do mundo real.

Amei.

bjs

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